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Com prosa poética e sarcástica, “Manual da demissão” inspira reflexões sobre a crise e a onda de cortes nas empresas

noticia | 08/02/2018 | Da Redação

No romance “Cravos”, primeiro livro de Julia Wähmann lançado pela Record, um elefante caindo ilustra a capa e antecipa a ideia de movimento que permeia toda a história. Em seu novo livro, é a pata de um cavalo em posição de coice que indica o tema da narrativa, tão atual para o cenário brasileiro.

 

Em “Manual da demissão”, a protagonista, além de ser dispensada do trabalho, enfrenta o fim de um relacionamento amoroso. Para tentar se recuperar do pé na bunda duplo, ela acompanha amigos que estão no mesmo barco, enfrentando filas e mais filas para resolver questões burocráticas sobre FGTS e seguro desemprego, por exemplo. Ela ainda se solidariza com eles, guardando em sua casa caixas com seus pertences dos antigos escritórios, formando um depósito de memórias da época em que suas vidas eram ordenadas pelo expediente.

 

Com texto ágil e irreverente, a narradora lista um método para enfrentar a demissão de forma menos traumática, com apoio da família, amigos e uma boa dose de livros, filmes e músicas. Outra dica valiosa sugerida por ela é preparar o emocional para o fluxo migratório causado pelas demissões. Todo mundo tem um amigo que foi tentar a vida em Portugal, não é mesmo?  O livro inclui ainda um link com uma playlist batizada de “a trilha sonora dos demitidos”. Na lista, está o clássico do Só pra contrariar” que começa com a emblemática frase:  “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”.

 

 

“Manual da demissão” chega às livrarias neste mês de fevereiro pela Record.

 

Trechos

 

“Ser demitido é uma merda. Mas, como dizem, há o passaralho e o ficaralho, e os meus colegas sofriam a síndrome da sobrevivência, enquanto sonhavam com uma vida mais Bartleby. Estávamos todos no mesmo barco.”

 

“Uma demissão, assim como um pé na bunda, é um evento que legitima a vida na Terra, e, enquanto do segundo se diz que te faz andar pra frente, do outro primeiro diz-se que, onde uma porta se fecha, uma janela se abre, além de outros consolos, ditados populares e pesares evocados em tais provações. Em comum, ambos geram um sentimento inconteste de rejeição e compulsão, temporária ou não, por açúcar, ansiolítico ou drogas mais marginais, primeiras boias de salvação quando o golpe apenas dói e a janela é somente o melhor lugar de onde se arremessar.”

 

Julia Wähmann nasceu em 1982, no Rio de Janeiro. Em 2015, publicou Diário de Moscou (Megamíni/7 Letras) e André quer transar (Pipoca Press). Em 2016, pela Editora Record, publicou Cravos. 

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