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ONU reconhece Paulo Freire como patrono da educação brasileira

noticia | 07/03/2018 | Inês Ulhôa

O educador Paulo Freire sempre foi inspiração para aqueles que acreditam na educação como ação transformadora. Esse reconhecimento veio recentemente com a declaração da relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Educação, Mme. Koumbou Boly Barry. Segundo ela, “Paulo Freire é um patrimônio mundial e não pode ser desrespeitado no Brasil, sua terra”.

Foi justamente isso que tentaram fazer: desrespeitar a memória do maior educador de todos os tempos, reconhecido tanto no Brasil como no exterior. A proposta de retirar o nome de Paulo Freire como patrono da educação brasileira veio do conservador e direitista Movimento Brasil Livre (MBL). Entretanto, uma enorme reação da sociedade desencadeou uma campanha para barrar essa ação ofensiva contra o nome e o legado de Paulo Freire.

Com o arquivamento da ação pela Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, solicitado pela senadora Fátima Bezerra (PT-RN), Paulo Freire segue patrono da educação brasileira. Para a senadora, “só alguém que desconhece a grandiosidade da vida e da obra de Paulo freire na luta pela educação no Brasil e no mundo pode representar um recurso de maneira estúpida como esse”.

Paulo Freire não foi apenas um pedagogo. Suas ideias educacionais foram além do simples educar. Ele dedicou sua vida a instigar nosso pensamento sobre como é estar no mundo. Para ele, o saber (conhecimento), o saber-fazer (habilidades), o saber-pensar, o pensar certo são essenciais para a transformação social do ser humano. No entanto, parece que os autores da nefasta ação não percebem o quão valiosa foi a intervenção de Paulo Freire na educação e o atacam em nome de uma tal escola sem partido, que nem eles mesmos sabem a que serve.

Autor de muitos livros e textos, com mensagens profundamente libertadoras, Paulo Freire foi laureado com 41 títulos de doutor honoris causa por universidades distribuídas por todo o mundo e intitulado professor emérito de cinco universidades brasileiras. Em sua obra mais famosa, Pedagogia do oprimido, ele foca a educação como instrumento para a libertação, com participação ativa e consciente, capaz de superar uma cultura baseada em classes sociais. Ele pensava a educação juntamente com a subjetividade do ser humano para uma construção da história e da cultura.

As ideias de Freire não morrem jamais

Paulo Freire tinha um amor incondicional pelo mundo. O seu amor humanista baseava-se principalmente na esperança e na crença nos homens e nas mulheres e na certeza da transformação do mundo a partir dos oprimidos e injustiçados pela superação da contradição antagônica opressor-oprimido. Segundo ele, “não é possível estar no mundo, com o mundo e com os outros, sem estar tocados por uma certa compreensão de nossa própria presença no mundo. Vale dizer, sem uma certa inteligência da História e de nosso papel nela”.

Foi essa sua capacidade crítica que o fez ser conhecido em todo o mundo e o que fez a relatora da ONU afirmar que “a pedagogia de Paulo Freire representa o caminho mais seguro para a liberdade e para a promoção de uma sociedade justa e digna para todos”. Ela declarou-se muito feliz em saber que o lugar de Paulo Freire como Patrono da educação brasileira permanece intacto, “respeitando a sua memória, seu legado e suas crenças”.

 Nos tempos atuais, as ideias deste educador continuam a oferecer muitas possibilidades de debate justamente pela sua crítica aos meios de comunicação de massa, que, para ele, se constituem em meros instrumentos de transmissão e tratam os destinatários como receptores passivos e não possibilitam relações dialógicas. Paulo Freire era um defensor da comunicação como direito humano fundamental de homens e mulheres.

Ironicamente, este fato trouxe de volta o pioneirismo, a importância e a atualidade do pensamento de Paulo Freire, no que se refere à ação transformadora da educação, principalmente entre interessados e estudiosos que acreditam que a educação, em suas várias vertentes, não é apenas um ato, mas principalmente um ato político-pedagógico, e nunca neutra, que serve à transformação política e econômica dos oprimidos, pois como ele mesmo diz: “O mundo não é. O mundo está sendo. [...] meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da história, mas seu sujeito igualmente. No mundo da história, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar”.  

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