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Poesia e cinema brasiliense têm presença no 1º Fórum BRICS

noticia | 17/12/2017 | Angélica Torres

Evento literário é realizado na China, de 15 a 19 deste mês

 

Foto de Letícia Verdi (Nicolas Behr, Malu Verdi, Chico Alvim e João Lanari)

 

Brasília, 17.12.2017 - Se poesia não vale o que pesa, no mercado de consumo geral, é sintomático que os chineses a tenham incluído no 1º Fórum BRICS de Literatura, em realização, desde o dia 15 até 19, na Universidade Normal de Pequim, na cidade de Zhuhai. Poetas brasileiros, de Gregório de Mattos aos atuais, que se comprometeram com a resistência política, foram o foco de uma das palestras do debate bilateral, que incluiu a poesia brasiliense.

Da delegação brasileira, ao lado dos professores João César de Castro Rocha (UERJ) e Francisco Foot Hardman (Unicamp), a poeta Maria Lúcia Verdi foi a convidada para essa tarefa, pela atuação que teve na interface cultural Brasil-China durante os cinco anos que viveu em Pequim. Por email a seus familiares, ela contou do sucesso de sua apresentação, nos dois primeiros dias do encontro.

Malu Verdi levou livros de poetas de Brasília e a coleção de documentários da cineasta Maria Maia sobre personagens da cultura brasileira, para presentear as bibliotecas da Universidade Normal e da Federal de Pequim. “Quem sabe disso resulta uma publicação bilingue de poesia brasiliense e chinesa?”, anima-se. 

“Meus dois 'papers' foram muito bem recebidos, porque considerados oportunos e úteis. No primeiro dia, das três perguntas vindas do público, duas foram para escritores chineses e uma para mim, a única dos estrangeiros que pode voltar a dizer algo, o que me alegrou muito”, contou.

Organizadora em Brasília do projeto Poetas do Mundo, Malu Verdi já levou ao palco as poesias chinesa, alemã e argentina. O último homenageado pelo projeto foi o mineiro-brasiliense Francisco Alvim, às vésperas de completar 80 anos de vida e com mais de 50 de exercício como poeta. Alguns dos livros do poeta estão agora integrando as estantes das universidades chinesas.

O tributo a Chico Alvim em Poetas do Mundo

A homenagem a Francisco Alvim, no contexto do projeto Poetas do Mundo, promovido por Maria Lúcia Verdi, foi feita em fins de novembro no ovni de Oscar Niemeyer pousado na Esplanada dos Ministérios -- o Museu da República Honestino Guimarães. Mais do que um tributo ao poeta, a sessão acabou se caracterizando como um manifesto, ou um ato de resistência, ou uma catarse à mineira, porque a poesia de Alvim em seu substrato é, por si, um retrato das idiossincrasias humanas e das instituições do país. Que dirá se lidas e ouvidas tendo como pano de fundo o aviltante atual estado de coisas políticas.

A escolha e leituras dos poemas por João Lanari, Nicolas Behr e Malu Verdi -- com o próprio poeta também à mesa fazendo comentários e contrapontos -- pegaram a plateia de jeito. Embora autor de mais de uma dezena de livros, laureado duas vezes com o Jabuti (em 1981 e 1988) e acarinhado pela mídia nacional, naturalmente que nem todos conhecem de fato a poesia de Chico Alvim e nem captam, à queima-roupa, o efeito da intrigante e crua arquitetura do seu verso-chiste, sutilmente cáustico, cínico, seco, incômodo.

Tomando emprestado de Guimarães Rosa em Sagarana, “raspe-se um pouco o mineiro; por baixo, encontrar-se-á o político”, pode-se traduzir a sorrateira, crua, irônica perspicácia de Alvim nos “causos” que ele ouve em diferentes ambientes, ou que cria, e verte para a esquálida estrutura do seu poema. Como neste intitulado “Velhos”: --Tudo bem, patrão? / (O dedo de leve na pala do boné / o corpo franzino e baixo/ ruindo para um lado) / -- Tudo bem, obrigado. / -- Obrigado.

Também em “Passamentos”: -- Coragem, Presidente! / -- Coragem não me falta. / O que me falta é ar.

Ou ainda neste brevíssimo, onde o óbvio é quase imperceptível, cujo título é “Quer ver?”: Escuta.

Neste outro, “Vida de artista”, a chave da mineiridade é posta na mão do leitor – aqui, no caso, da plateia ouvinte, que riu aliviada: Meu tio/ levou a vida que sempre quis -- / era funcionário público / e nem a mulher sabia.

Claro que a porção lírica do poeta atenua esse lado perturbador de sua poesia para os menos afeitos ao gênero, mas reconhecidamente revolucionário para os mais habituados e para os críticos. Entre esses, que foram lidos por Malu Verdi, está o imagético “Castália”.

Nunca mais / o encontro da água com o vento / nos pelos verdes da terra / A morte será o avesso do vale/ o galope silenciado dos antigos cavalos / o avesso do templo / e do homem que nele amanhecia -- / água que tudo secasse.

Diplomata de carreira, Chico Alvim não de intimidou em cutucar, com vara curta e elegância blasé, os da vez no poder. Entre outros, citou a desfaçatez de Geddel (Vieira) e disse de (Sérgio) Moro: “Este, então, acha-se o todo-poderoso, acima de todas as verdades”. Ao final, saiu-se com outro puxão de orelhas: “Devíamos trocar os dizeres da bandeira brasileira por ‘desculpa qualquer coisa’, expressão que todos temos que adotar também e passar a nos dizer uns aos outros”. (A.T.)

 

 

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