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Carta Aberta aos Brasileiros

artigo | 12/06/2018 | Alyne de Oliveira Bautista (filha de Bautista Vida)

Vendo hoje, 12/06/2018, terça-feira, a audiência no Senado da República Federativa do Brasil sobre a Reforma Tributária, eu, auditora fiscal estadual, percebi que há muitas coisas que a população ouve, mas não entende.

Vou tentar falar sobre o assunto de forma que qualquer um possa compreender, pois quem não entende, não consegue saber o que está sendo dito e facilmente é enganado.

Vamos começar do começo.

Os seres humanos se juntam em famílias e grupos sociais para se protegerem e terem suas vidas facilitadas por esta reunião. Há muita coisa que não é possível fazer sozinho, por isso as tarefas são divididas, há a divisão do trabalho. Enquanto uns constroem casa, outros fazem pesquisa de materiais, educam as crianças, cuidam dos doentes, transportam pessoas, limpam o espaço, fazem projetos...

Desta maneira, toda atividade tem uma utilidade para o grupo. Todo trabalho se resume em servir ao grupo.

Com o tempo, as atividades foram se especializando, surgiu a moeda, o comércio, os bancos...

Vamos falar apenas da sociedade capitalista, onde as pessoas podem comprar terras e até mesmo comprar o trabalho de outras pessoas.

Inicialmente as trocas eram feitas apenas entre bens e serviços, depois criaram algo que todos aceitassem e que facilitasse as trocas. Já foi usado o sal, o ouro e depois foi criada a moeda para isso.

O valor da moeda depende do valor daquilo que ela representa, então, uma sociedade que tivesse, por exemplo, um milhão de quilo em ouro, poderia emitir o equivalente em moedas. Se emitissem mais moedas sem aumentar suas riquezas, o valor de cada moeda cairia. Se, ao contrário, criassem mais riquezas e não emitissem mais moeda, o valor de cada moeda aumentaria. Esse é o princípio da disciplina que chamamos economia.

Ao longo da história da humanidade, os grupos sociais aumentavam e queriam ampliar suas terras e suas riquezas. Como algumas partes do planeta já estavam ocupadas, esses grupos lutavam para as retirar de outros grupos e o mais forte além de pegar as terras do mais fraco também costumava escravizar a população do grupo dominado. Assim fizeram os egípcios, os romanos, os espanhóis, os ingleses e todos os povos que sobreviveram.

Recentemente, na história mundial, há setenta e três anos atrás, em 1945 acabou uma dessas guerras envolvendo vários países, inclusive o nosso. Um sujeitinho chamado Hitler liderou os alemães para invadirem e ocuparem vários territórios, além de tentar acabar com os judeus no mundo, pois os judeus tinham boa parte das riquezas e, ele acreditava que “deveria tomar como missão vingar a Alemanha contra a “punhalada nas costas” que tinha tomado dos políticos, muitos deles judeus, que proclamaram a república” (https://super.abril.com.br/historia/como-hitler-pode-acontecer/).

A segunda guerra mundial foi consequência da insatisfação dos alemães com o resultado da primeira guerra mundial em que, enquanto perdedores, foram obrigados a pagar pelos estragos. (https://aprovadonovestibular.com/segunda-guerra-mundial-resumo-causas.html)

A primeira guerra, por sua vez, surgiu da insatisfação da Alemanha e da Itália com a distribuição das colônias na África e na Ásia. Enquanto Inglaterra e França ficaram com grandes territórios com muitos recursos para explorar, Alemanha e Itália tiveram que se contentar com poucos territórios de baixo valor. (https://www.suapesquisa.com/primeiraguerra/causas_primeira_guerra.htm)

Como podemos ver, a questão dos recursos naturais e das terras sempre foi objeto de guerras desde que o “homem é homem” sobre o planeta Terra e a capacidade de guerra dos grupos sempre definiu quem fica com o quê. Foi por não ter capacidade de guerra contra a pólvora que os índios, que só dispunham de arco e flecha, perderam seus territórios e foram quase dizimados. É por não ter capacidade de guerra que a África foi dividida em diversas colônias e hoje, mesmo lá, em sua casa, os negros têm menos privilégios que os brancos.

Porque ninguém fala mal da China, mesmo ela sendo comunista? Acredito que seja por ela ter capacidade de guerra e armas nucleares. (https://www.epochtimes.com.br/a-china-continua-comunista/).

Entendido isso, que a força das armas controla o mundo e que "essas armas" buscam sempre expandir territórios e riquezas vamos refletir sobre quem decide para onde as armas apontarão.

Até aqui compreendemos que a força das guerras define a geografia dos países. Agora vamos pensar em algo que aconteceu no final da segunda guerra quando o Japão resolveu expandir seus territórios para dominar o território dos Estados Unidos. Os EUA tinham um pacto de não se envolver na segunda guerra mundial, mas como o Japão resolveu atacar os EUA bem no momento em que seus cientistas estavam desenvolvendo a bomba nuclear, as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram alvo da bomba recém-criada pelos americanos. Diante desta grande força, a bomba atômica, a guerra terminou com a vitória dos países apoiados pelos EUA.

A partir daí os EUA se aproveitaram de sua força de guerra para terem uma série de benefícios econômicos e impuseram ao mundo um modelo muito inteligente que, em outras palavras, transferia as riquezas planetárias para os EUA sem precisar de guerra. Como faziam isso?

Simples:

1- definiram que a moeda internacional seria o dólar;

2- passaram a imprimir dólares sem a referência em riquezas reais (antes da primeira guerra toda moeda impressa por um país teria que corresponder às riquezas deste país, normalmente calculadas em ouro);

3- como o dólar passou a ser a moeda internacional, aceita em todos os lugares, passaram a emprestar o dólar a juros;

4- os países que tomaram empréstimos passaram a ter que obedecer regras definidas pelos órgãos criados para isso como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos; 

A partir desse “acordo” dos EUA com os demais países do mundo, quebrados com a guerra, em processo de desenvolvimento como os países da América Latina ou países subdesenvolvidos como os da África e da Ásia, os EUA passaram a ter poder mundial e a definir quais políticas esses países deveriam ter. 

A esse “acordo” eles deram o nome muito conveniente de Consenso de Washington. Segundo a Wikipédia, “Consenso de Washington”  é uma conjugação de grandes medidas - que se compõe de dez regras básicas - formulado em novembro de 1989 por economistas de instituições financeiras situadas em Washington D.C., como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, fundamentadas num texto do economista John Williamson.” 

O próprio cientista que criou a expressão “Consenso de Washington”, não concorda com as medidas destas instituições em relação aos outros países.     (https://pt.wikipedia.org/wiki/Consenso_de_Washington

Essas dez regrinhas básicas, de forma genial, simplesmente colocavam nas mãos dos EUA o poder sobre todos os países que pedissem dinheiro emprestado. Eles, com essas regras, acabavam com as proteções que os países impunham aos demais para proteger todos os seus patrimônios e sua população. São elas (vide Wikipédia, as dez regras do Consenso de Washington):

·  Disciplina fiscal

·  Redução dos gastos públicos

·  Reforma tributária

·  Juros de mercado

·  Câmbio de mercado

·  Abertura comercial

·  Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições

·  Privatização das estatais

·  Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas)

·  Direito à propriedade intelectual

Em resumo, essas regrinhas dizem o seguinte: 

1- a partir de agora, quem quiser dólar emprestado vai ter que aceitar os nossos juros, que chamaram de “juro de mercado”, não poderão fazer leis para evitar que coloquemos um juro escorchante sobre os nosso empréstimos;

2 - para pagar os juros impostos por nós, terão que, obviamente, diminuir seus gastos públicos;

3 - se vai aumentar os gastos com juros então vai ter que arrecadar mais, porém, nós não queremos que seja sobre as empresas que vamos colocar nos países de vocês, nem sobre as terras que nossas empresas vão comprar, então vocês terão que fazer uma reforma tributária, para cobrar esse dinheiro de sua própria população;

4 - o valor do dinheiro desses países não vai ser definido por suas riquezas ou por seus governos, a partir de agora não vai mais haver regras, vocês vão aceitar o valor do “mercado”, nome muito bonito para o valor do dólar calculado pelas instituições e bancos americanos;  

5 - vocês terão que vender para nós e comprar de nós, não poderão fazer reserva de mercado, nem legislar sobre sua produção;

6 - vocês não poderão restringir nossas compras de empresas estatais aí, nem o preço de nossos produtos;

7 - vocês terão que incentivar as vendas para o livre “mercado”. Quem tiver dólares e fizer a melhor oferta poderá comprar;

8 - como nós pretendemos colocar nossas empresas aí, vocês não poderão fazer leis para beneficiar seus trabalhadores, nem para valorizar o dinheiro de vocês. Têm que deixar as leis econômicas e trabalhistas frouxas;

9 - e, a partir de agora, nenhum país poderá copiar o que nós inventamos. Quem quiser fabricar o que nós já desenvolvemos terá que nos pagar por isso.  

Pronto, assim começou a competição do “livre mercado” que se chamou NEOLIBERALISMO.

Não é lindo? O que você acha?

Sem precisar de dar tiros nem invadir territórios, os EUA começaram a emitir dinheiro sem lastro, a colocar multinacionais em todo o mundo, a receber juros das dívidas emprestando esse dinheiro sem valor real e a comprar as riquezas reais de todos os países. Como exigência pelas dívidas que os países contraiam para ter dólares, os EUA faziam essas exigências.

É preciso que os brasileiros entendam que as empresas não têm pátria, somente as empresas estatais têm pátria, todas as outras vivem dentro dessas regras determinadas pelos EUA no Consenso de Washington.

Cada país tenta, de alguma forma, proteger suas riquezas e sua população, desenvolver sua própria tecnologia para não ter que pagar royalties ou importar os produtos acabados.

Na livre concorrência, cada empresa, para não ser “comida” por outra maior precisa ter mais lucro e busca os locais onde não paga impostos altos, onde não há leis para proteger o meio ambiente ou os trabalhadores.

É fácil de entender a lógica do sistema, não é?

Então, vamos lá. Do jeito que a livre competição começou, digo, o livre comércio, que país teve mais vantagem? Alguém adivinha? É muito fácil, colocar o lobo e o cordeiro soltos no pasto e dizer: se virem, que ganhe o mais forte.

Até aqui, todo mundo entendeu as “regras do jogo”. Mas, o pessoal que tá ganhando, tem muito medo de perder o poder. O pessoal que tá ganhando tomou gosto pela “coisa” e, se, por exemplo, um desses países decidisse que não ia mais aceitar que os EUA fizesse isso e dissesse “ a terra é nossa”, "vocês não vão entrar aqui e explorar nossa gente como seus escravos", "não vamos permitir que as pessoas aqui trabalhem dez horas por dia por um prato de comida”, “não queremos que os seus grandes supermercados, farmácias, destruam nossos pequenos comerciante e seus meios de vida”, “não queremos ter que pagar para usar seus inventos, vamos ajudar nossa população a desenvolver seus próprios inventos”?

Esse seria um risco real, não é? Teoricamente os países são soberanos para fazer suas regras não são?

Bem, para diminuir esses riscos, depois das empresas mais fortes abrirem filiais dentro no Brasil e ser permitido a elas financiar campanhas eleitorais, se associar a donos de jornais, de TVs, de rádios, elas obviamente usaram seu poder econômico para interferir na escolha política da população. Uma vez com seus representantes dentro do Congresso Nacional, das instituições que fazem as leis, das empresas que informam a população sobre o que acontece no país, como ainda podemos falar em democracia? Há democracia sem acesso à verdade?

O dinheiro passou a ser global, a economia passou a não ter regras, o dólar passou a ser o dinheiro do mundo, o que iria impedir que essas empresas tivessem os seus representantes entre os que fazem as leis do país?

E se a população dos países consumisse filmes que colocam os EUA sempre como “OS” heróis? E se nas escolas, as crianças já aprendessem que os EUA são os melhores? E se fizessem a população Brasileira desacreditar de si mesma e se vender como ruim, incapaz, desonesta? Como se a capacidade de um povo não dependesse unicamente da formação dada pela mídia e pelas escolas.

Acho que os EUA sonharam que conseguiriam que os brasileiros e os demais países neocolonizados, enganados e inconscientes de seus algozes, chegassem a mandar uma carta com milhares de assinaturas para a casa branca pedindo socorro como nos filmes de super heróis. (http://www.ricardosetti.com/peticao-a-casa-branca-para-que-os-eua-ajudem-contra-a-marcha-para-o-comunismo-bolivariano-no-brasil-quer-que-os-eua-resolvam-problema-que-e-dos-brasileiros-e-tem-o-sinal-da-vocacao-para-capac/) Parece incrível, mas isso aconteceu.

Quem está lendo, está conseguindo enxergar a situação mundial atual?

Está conseguindo enxergar porque se faz tanta propaganda contra Cuba, Venezuela e nada se diz contra a China que é comunista?

Dá para entender o absurdo e a grande ameaça que são as ideias e o mau exemplo dos cubanos para o resto do mundo? Dá para entender que a Venezuela e Cuba ao se recusarem a seguir as dez regras do Consenso de Washington são um péssimo exemplo e têm que dar errado?

Dá para entender porque é preciso destruir a Venezuela e Cuba? Elas não são uma ameaça bélica. Elas são uma ameaça ideológica de insubmissão.

E a China? Ora, a China tem a bomba atômica, os EUA não têm a expectativa de a controlar. Eles não são idiotas. Se mexerem com os chineses podem perder tudo, então eles simplesmente respeitam e comercializam com a China, mas exigem bloqueio comercial a Cuba e a Venezuela.

Aí você me pergunta: o que tem a reforma tributária a ver com tudo isso?

A reforma tributária que o Congresso Nacional já tem pronta para aprovar foi feita por advogados contratados por essas empresas sem pátria, que vão para o lugar onde têm mais lucros e querem ficar aqui porque somos abundantes em água, energia, biodiversidade, mão de obra escrava...

As empresas não pensam as sociedades, não constroem civilizações. As empresas só visam ao lucro, a concorrência, a competição.

Querem que os dez pontos do Consenso de Washinton permaneçam mesmo depois do Brasil ter quitado a dívida pública e ter ficado livre do FMI. Imagina, o Brasil estava se juntando com outros quatro países para fazer uma nova moeda, deixando o dólar de lado. O Brasil estava desenvolvendo um submarino nuclear para defender seus poços de petróleo. O Brasil estava construindo um cabo submarino para se comunicar com seus parceiros do BRICS sem a escuta e a vigilância dos satélites americanos. Os parceiros do Brasil, no BRICs têm a bomba atômica: a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul. O Brasil começou a aumentar o salário mínimo de sua população. O Brasil expandiu a rede pública de ensino federal, levando ao seu vasto interior faculdades que geram pessoas capazes de criar invento, tecnologia. O Brasil se tornou autossuficiente em energia.

O Brasil tem mais riquezas naturais que os EUA, algumas delas de forma quase exclusiva no planeta. Imagina se esse gigante que é o Brasil passa a controlar suas próprias riquezas, a desenvolver sua própria inteligência e a fabricar tudo aqui? E, se, pior que tudo, fizer leis que determinem que suas matérias primas só sairão daqui sob o formato de produtos acabados, dando emprego a toda sua população e definindo os preços mundiais para produtos que só podem ser fabricados aqui?

Aí, os EUA estariam literalmente lascados, porque não têm as matérias primas.

Dá para acompanhar o raciocínio?

A reforma tributária, a reforma trabalhista, a reforma previdenciária e todas as reformas que a maioria dos parlamentares querem implantar seguem a lógica dos financiadores de suas campanhas, que são essas empresas sem pátria, que querem mão de obra escrava, produtos baratos e que levam os lucros de suas empresas para os países onde seus donos moram, onde ficam suas matrizes.

Os Chineses foram espertos e usaram essas regras do livre mercado a seu favor. A maior parte das empresas têm filiais lá na China. Isso tem gerado empregos para os chineses. Os Chineses não respeitam as regras impostas pelo Consenso de Washington, então não precisam pagar para fabricar os inventos produzidos nos EUA, copiam tudo, produzem tudo e vendem para o mundo todo apesar de, internamente serem comunistas. O Partido Comunista controla todas as terras e o “Alto-comando da Economia” na China. (https://www.epochtimes.com.br/a-china-continua-comunista/). Essa ida das empresas para a China e para os países que as “beneficiam” tem gerado crise de desemprego na maioria dos países. Muita gente se suicidou na Europa por ter perdido a capacidade de sustentar sua família após a abertura da economia e o livre comércio internacional sem regulação dos envolvidos.

O neoliberalismo praticado por Margareth Tatcher gerou o que vemos no filme “Eu, Daniel Blake”: pessoas “normais” se prostituindo e morrendo de fome. 

O neoliberalismo praticado por Pinochet é retratado no filme “Chicago Boys”. Além de prisões arbitráriasestuprotorturaassassinato e desaparecimentos forçados, a política econômica impunha a desregulamentação do mercado e privatização dos serviços públicos. Como consequência desse regime forçado a bala com apoio dos EUA boa parte da população do Chile, ao menos a que tinha dinheiro para isso, fugiu da pobreza, do desemprego em alta e da perda dos direitos trabalhistas durante o período ditatorial. A ditadura de Pinochet provocou um verdadeiro êxodo chileno. (https://voyager1.net/politica/falso-paraiso-neoliberal/

Para finalizar, muita gente aqui no Brasil entende esse sistema mundial injusto e tenta explicar, mas essas pessoas não são milionárias, são simples estudiosos que não são chamados para falar nos meios de comunicação, não chegarão nunca à massa da população. Portanto, a libertação das pessoas em todo o mundo contra o domínio dessas corporações protegidas por armas de fogo dos exércitos das nações passa pela conscientização e união em escala mundial. A internet tem gerado uma revolução nos costumes e, se usada para divulgação da verdade e de uma sociedade voltada para a solidariedade humana e não para a competição desregrada, podemos mudar a realidade mundial. 

Alyne de Oliveira Bautista

Humanista, com diversas formações.

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