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É a desigualdade, estúpido

artigo | 15/12/2017 | Maria Luiza Franco Busse

Torcedores do Flamengo invadiram o Maracanã no jogo em que o time disputava com o Independiente, da Argentina, vaga para a final da Copa Sul-Americana. Não tinham ingresso. Arrebentaram portões, pularam as catracas e, de quebra, ainda passaram a mão na cervejinha que voltou a ser vendida no estádio ao preço de R$7,00.

Como de costume, a imprensa da classe rica cobriu o acontecimento como “ato de vândalos”, “selvageria”, e “incompetência dos administradores” no controle de entrada do público. Por sua vez, os administradores deram a explicação burocrática de que a culpa era do ‘cartão-torcedor’ que permitia acesso até as roletas sem a garantia de que tivesse carga de ingresso.

Enquanto isso, no mesmo estado do Rio de Janeiro, só que no final de semana anterior e no dito sofisticado balneário de Búzios, famílias se hospedavam em um hotel com diária de R$1.569,00 e pagavam R$999,00 por pessoa para aprender a atirar no programa temático ‘Imersão no universo caveira’.Organizado e dirigido por dois oficiais da Policia Militar, tratava-se de viver o treinamento do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais conhecido como tropa de elite, e praticar técnicas de interrogatório, arremesso de faca e granada, arco e flecha, e manejo e uso de arma de fogo.

O Globo, capitão da imprensa dos ricos, cobriu o acontecimento como “lúdico e recreativo”, formado por “um público familiar” onde os pais realizavam a experiência e “crianças brincavam em volta”, embora menores até 11 anos pudessem participar sem pagar. Tudo muito natural, engraçado e divertido. Assim foi a cobertura da nova modalidade batizada de ‘turismo de experiência’ em que as classes médias alta e esforçada aprendem a disparar sua ignorância e seu ódio de modo mortal, definitivo.

O povo é ‘vândalo’, a classe média é ‘lúdica’. Uma guerra desorganizada de baixa intensidade ronda o país e a imprensa dos ricos jogando cada vez mais seu peso na repressão que tem como máxima “a questão social é um caso de polícia”.

A propósito, como a imprensa dos ricos noticiaria o pacote turístico que oferecesse “um fim de semana na paradisíaca praia caribenha de Varadero, Cuba, vivendo a experiência de aprender a atirar com companheiros de Fidel e Che Guevara”?

 

 

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