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As dinâmicas do governante e o viaduto

artigo | 08/02/2018 | Valéria Moraes

Todo governante enfrenta continuamente, ao longo do mandato, situações nas quais precisa tomar decisões sobre qual a melhor aplicação dos recursos que tem disponíveis. Esses recursos são, quase sempre, bem menores que as necessidades, o que faz que tais decisões sejam também quase sempre muito difíceis de serem tomadas.

Várias dinâmicas temporais próprias da gestão pública agravam esse contexto. A dinâmica, bastante alongada, da contratação pública, que precisa atender a um extenso conjunto de regras que visam ao respeito à coisa pública. A dinâmica eleitoral, que exige realizar projetos com prazo de maturação relativamente curtos para a magnitude das intervenções estatais. A dinâmica política, que implica em buscar acomodar os diferentes interesses de forma a ter a menor reação, ou a maior adesão, possível para os projetos. E, por fim, a própria dinâmica dos problemas com os quais a gestão pública lida, cuja complexidade leva, muitas vezes, a que os governantes concentrem o foco de atenção exclusivamente nos problemas que “gritam” mais, isto é, aqueles dos quais ele não tem como fugir de dar uma solução imediata.

Todas essas dinâmicas consomem tempo e exigem muita perícia na análise tecnopolítica das ações, uma perícia que a maior parte dos que atuam na tomada de decisão de alto nível na área pública, sejam dirigentes, seja assessoria, não domina. Nesse quadro, não é de se estranhar que muitos governantes atuem praticamente apenas nas urgências, não destinando atenção a um problema antes que ele “grite”.

A queda do viaduto aqui em Brasília tem todas as características para se configurar como problema que só foi tratado depois que “gritou”. Relatório do Tribunal de Contas de 2012 aponta a necessidade de sua manutenção urgente. Como o relatório é de 2012, a dinâmica de compras públicas e, em alguma medida, a dinâmica eleitoral devem ter tido papel importante na não realização da manutenção naquele ano e no ano seguinte. Vale lembrar que, na mesma época, estavam sendo realizadas obras de reforma e manutenção na rodoviária, bem próximo ao local do acidente. Portanto, havia destinação de recursos para problemas “silenciosos” naquele momento.

Agora, em 2018, a situação certamente bastante agravada com o passar dos anos após o relatório, a única avaliação possível é que a atual gestão não foi capaz de analisar com a devida perícia esses problemas em sua fase ainda, em alguma medida, silenciosa, para atuar de forma preventiva. Indicativo da necessidade de manutenção não faltaram e, certamente, também não faltaram recursos financeiros, uma vez que, a menos de 8km do local, na Ponte do Bragueto, está em curso obra de engenharia rodoviária, de grande porte (e custo!) e, ao que dizem muitos, sem grandes utilidades a não ser atender à dinâmica eleitoral.

Valéria Moraes é presidenta do PT Plano

 

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