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Um redivivo profundamente (homenagem aos assassinados pela ditadura)

artigo | 11/09/2018 | Pedro Augusto Pinho

HOMENAGEM AOS ASSASSINADOS PELA DIREITA, APÓS O GOLPE, AGRADECENDO AO IMENSO POETA BRASILEIRO MANUEL BANDEIRA

 

Profundamente

 

Quando ontem adormeci

Nos Governos do PT

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas, luzes de Bengala

Vozes, cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

 

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões

Passavam, errantes

Silenciosamente

 

O ruído de ódio e raiva

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

 

Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.

 

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Onde havia escola

Havia minha casa e minha vida

A comida

Da bolsa família e do emprego

E a esperança no futuro

 

Onde estão todos eles?

Marielle Franco, Vereadora do PSOL do Rio de Janeiro

Paulo Sérgio Almeida Nascimento, líder comunitário no Pará

George de Andrade Lima Rodrigues, líder comunitário em Recife

Carlos Antônio dos Santos, o “Carlão”, líder comunitário no Mato Grosso

Leandro Altenir Ribeiro Ribas, líder comunitário em Porto Alegre

Márcio Oliveira Matos, liderança do MST na Bahia

Valdemir Resplandes, líder do MST no Pará

Jefferson Marcelo do Nascimento, líder comunitário no Rio

Clodoaldo do Santos, líder sindical em Sergipe

Jair Cleber dos Santos, líder de acampamento no Pará

Fabio Gabriel Pacifico dos Santos, o “Binho dos Palmares”, líder quilombola na Bahia

José Raimundo Mota de Souza Júnior de Antônio Gonçalves, na Bahia

Rosenildo Pereira de Almeida, o “Negão”, líder comunitário na Fazenda Santa Lúcia, no Pará

Eraldo Lima Costa e Silva, líder do MST no Recife

Valdenir Juventino Izidoro, o “Lobó”, líder camponês de Rondônia

Luís César Santiago da Silva, o “Cabeça do Povo”, líder sindical do Ceará

Waldomiro Costa Pereira, servidor público no Pará

João Natalício Xukuru-Kariri, líder indígena em Alagoas

Almir Silva dos Santos, líder comunitário da Vila Funil, em São Luiz, no Maranhão

José Bernardo da Silva, andando com mulher e filha, na BR-336, em Pernambuco

José Conceição Pereira, líder comunitário no Maranhão

Edmilson Alves da Silva, líder comunitário em Alagoas

Nilce de Souza Magalhães, a “Nicinha”, líder comunitária em Rondônia

Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, líder indígena do Mato Grosso

Paulo Sérgio Santos, líder quilombola do acampamento Nelson Mandela, em Helvécia, na Bahia

E todas as 47 pessoas, assassinadas no campo, apenas no primeiro semestre de 2017

 

Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.

 

Este poema compõe o livro que Mário de Andrade considerou “o mais indivíduo Manuel Bandeira” dos que o poeta publicou. Era sua “libertação pessoal”.

 

Pela apropriação da ideia e parcial reprodução

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

 

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