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Taguatinga guarda as origens do teatro no DF

noticia | 02/10/2017 | Angélica Torres

 

Angélica Torres

 

Poucos sabem que foi Sylvia Orthof (1932-1997) quem fundou o teatro no DF, mais exatamente em Taguatinga Norte, e dirigido a operários moradores das satélites. Anos depois, já no Rio, Sylvia se consagraria escritora de livros infantis, mas para os que aqui a conheceram, seu nome ainda brilha como a pioneira do teatro brasiliense. Com a morte em agosto de Nando Cosac, seu então assistente de direção e iluminação no Teatro do SESI, essa história voltou em cartaz.

 

Sylvia reviveria em Brasília o destino dos pais, judeus austríacos, fugindo da II Guerra Mundial para o Rio, onde nasceu: saiu daqui com o marido e os filhos pequenos, ainda nos anos 60, por problemas com a ditadura militar, após escrever, montar, dirigir espetáculos e lecionar teatro na UnB. Sua atuação artística com os operários foi vista como subversiva pelos militares que assumiram os postos de comando, inclusive no SESI.

 

Mas ela já tinha semeado a paixão pelas artes também no elenco que formou no Plano Piloto e montou peças de sua autoria, como Cristo versus Bomba, que trouxe o 1º prêmio do Festival de Arcozelo (RJ) para a Brasília recém-nascida. Da influência que seu talento exerceu nessa primeira geração de atores da cidade, oriundos de diversos estados, resultaram vários artistas famosos, entre eles o cantor Ney Matogrosso e a escritora Ana Miranda.

 

No SESI-Taguatinga, o plantio da mestra também frutificou. Nando Cosac assumiu o lugar dela e por alguns anos manteve sua escola em ação, mas voltada aos filhos adolescentes dos operários, por ordens da repressão vigente. Surgia mais uma geração de futuros artistas, já nascidos no DF, como Chico Morbeck e Lúcia Carvalho, que anos depois ingressou na política. Com o jovem elenco, entre outras peças Cosac montou Auto da Compadecida, de A. Suassuna, que ganhou repercussão no Jornal do Brasil e foi vista pelo então presidente Médici e sua comitiva.

 

Durante anos, Cosac queixou-se que não se fez jus à importância de Sylvia Orthof na formação artística da capital do país, que se devia gravá-la na memória da cidade. Este texto é portanto uma pequena homenagem a ela mas também a ele, seu discípulo e leal parceiro de trabalho. 

 

Na foto, Sylvia em sua casa em Brasília nos anos 60.

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