economia

A face escravocrata, misógina e rentista do golpe

artigo | 09/03/2018 | Jeferson Miola

1. O Banco Itaú, sozinho, teve um lucro líquido de R$ 24,9 bilhões em 2017.

Estima-se que em 2018 o lucro do setor bancário brasileiro, que é extremamente oligopolizado nas mãos de poucas famílias biliardárias, deverá ultrapassar R$ 110 bilhões.

Outros 800 a 900 bilhões de reais serão drenados para os agiotas não-brasileiros da mesma forma, ou seja, mediante o pagamento de juros e amortização da dívida indecente.

Enquanto isso, projeta-se um estouro do orçamento federal de 2018 em R$ 150 bilhões.

2. O desemprego continua grave no Brasil, apesar do esforço coordenado entre o governo ilegítimo, os partidos golpistas, a Rede Globo e o conjunto da mídia, que buscam edulcorar um cenário para a eleição – artificial – de fim da recessão e de retomada do desenvolvimento.

O golpe retirou o Brasil de uma realidade de pleno emprego dos períodos do PT para jogar a economia num dos patamares de desemprego mais elevados do mundo: 12,4% – mais de 13 milhões de desempregados.

Curiosamente, entretanto, os empregos domésticos estão dentre aqueles que tiveram maior oferta de número de vagas de trabalho desde a perpetração do golpe.

Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua [PNAD Contínua] do IBGE de janeiro de 2018, o Brasil é recordista mundial de empregos domésticos – 6,37 milhões [tabela abaixo].

Os empregos domésticos respondem por 6,95% dos empregos totais do país. São empregos de pior remuneração, de grande informalidade [sem carteira assinada] e que empregam quase a totalidade mulheres. Dentre as mulheres, a enorme maioria são negras.

 

Grupamentos de Atividade

Nº de empregos

% de empregos

Rendimento médio real habitual, em R$ 1,00

AGRICULTURA, PECUÁRIA, PRODUÇÃO FLORESTAL, PESCA E AQUICULTURA

8.569

9,35

1.227

INDÚSTRIA GERAL

11.831

12,91

2.191

CONSTRUÇÃO

6.798

7,42

1.672

COMÉRCIO, REPARAÇÃO DE VEÍCULOS AUTOMOTORES E MOTOCICLETAS

17.831

19,45

1.742

TRANSPORTE, ARMAZENAGEM E CORREIO

4.558

4,97

2.480

ALOJAMENTO E ALIMENTAÇÃO

5.234

5,71

1.400

INFORMAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ATIVIDADES FINANCEIRAS, IMOBILIÁRIAS, PROFISSIONAIS E ADMINISTRATIVAS

10.168

11,09

3.120

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, DEFESA, SEGURIDADE SOCIAL, EDUCAÇÃO, SAÚDE HUMANA E SERVIÇOS SOCIAIS

15.620

17,04

3.137

OUTROS SERVIÇOS

4.689

5,12

1.618

SERVIÇOS DOMÉSTICOS

6.370

6,95

858

TOTAL

91.668

100,00

2.087

IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, janeiro de 2018

Estes dados demonstram que a oligarquia e a classe média branca, misógina e escravocrata está em estado de graça com o golpe; celebra o retorno à vida da Casa Grande.

A oligarquia golpista voltou a contar com suas escravas domésticas que realizam os serviços braçais e sujos da casa e da família.

Com a derrubada dos governos do PT, a oligarquia e sua classe média auxiliar finalmente se liberaram para acumular ainda mais riqueza às custas das suas escravas domésticas exploradas, mal-remuneradas e precarizadas nos seus direitos.

3. O crescimento do emprego doméstico é a evidência cabal da natureza escravocrata e racista do golpe. É um indicador do aumento da exploração das mulheres negras e das mulheres mulatas e brancas pobres. É um indicador, enfim, da regressão civilizatória do Brasil.

O crescimento deste tipo de emprego – que revela atraso ao invés de desenvolvimento – é uma metáfora da índole misógina do golpe, que não só derruba e desempodera a mulher no poder – como fizeram com o impeachment fraudulento da Dilma – como subalterniza a mulher e destina a ela os papéis mais humilhantes na sociedade.

Não bastava derrubar Dilma, a mulher que liderava os destinos do país. Era necessário colocar a mulher, especialmente a negra e pobre, de joelhos à dominação patriarcal, branca e autoritária.

Só cego não vê. A face escravocrata, misógina e rentista do golpe está escancarada.

A história da dominação oligárquica no Brasil é a história do poder do dinheiro, das finanças e da propriedade.

É a história do poder exercido por uma oligarquia burra, autoritária e conspirativa, que é incapaz de admitir a modernização do próprio capitalismo.

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