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A ocupação não conseguirá deter o nosso ideal

artigo | 23/03/2018 | Bassem Tamimi, marido de Nariman Tamimi e pai da menina Ahed Tamimi

A prisão de minha esposa, Nariman Tamimi e da minha filha, Ahed Tamimi, não é um acontecimento excepcional na vida do povo palestino e não é um fato estranho ao sofrimento de cada lar palestino, desde a primeira Nakba palestina, em 1948, até os dias atuais. Minha família e eu somos um microcosmo dessas experiências dolorosas sofridas pelo nosso povo, visto que a experiência de luta das mulheres da minha família é a encarnação do sofrimento e dos sacrifícios de todas as mulheres da Palestina.

Hoje, a dor nostálgica que sinto pela minha esposa e minha filha mistura-se à nostalgia de minha amada e alegre mãe, que morreu há três anos, devido à doença e enorme tristeza que a acometeu, devido à perda de seus dois únicos filhos, eu e minha irmã Basema, que morreu como mártir há quase 25 anos, após ser violentamente espancada pelos colonos às portas do tribunal, quando ia assistir ao julgamento de seu filho detido. À época, eu estava preso e vivi a pior experiência de detenção da minha vida, visto que, durante o julgamento, sofri uma hemorragia cerebral que levou-me à um coma, do qual despertei paralizado e incapaz de realizar qualquer movimento durante certo tempo. Coincidentemente, no mesmo dia em que saí da prisão, foi o dia do funeral da minha irmã. Estes foram os momentos mais dolorosos da minha vida. Mas a ferida não cicatrizou e a tragédia não acabou. A ocupação israelense dilacera o nosso peito há 70 anos.

A minha filha Ahed seguiu o caminho de seus pais. Estávamos cientes da iminência da prisão de Ahed, visto que, na véspera, os meios jornalísticos da ocupação israelense tinham lançado uma intensa campanha de incitação contra ela. Em decorrência desta campanha, eles prenderam minha filha na madrugada do dia 19 de dezembro de 2017, quando a ocupação mandou mais de trinta soldados israelenses, fortemente armados, para arrancar a minha filha dos braços de sua família. Eles cercaram nossa casa com mais de 12 patrulhas militares, em meio ao lançamento de um intenso bloqueio com bombas de som e gás. Prenderam a minha pequena e confiscaram alguns de seus pertences pessoais, além de algumas câmeras, computadores e telefones celulares. Eles tentaram nos intimidar e incutir o terror em nossos corações e o de nossos filhos, especialmente em Ahed, mas ela permaneceu calma e manteve o autocontrole. Sua voz elevou-se de dentro de um dos jipes militares: "Não tenham medo, eu sou forte!". Logo no início da manhã, minha esposa Nariman foi ao Centro de Investigação Militar de Benjamin para verificar a situação de Ahed, mas ela não voltou! Este momento representou outro divisor de águas na vida da nossa família.

Um dia Ahed me perguntou: “Pai, o que é a ocupação?”. Eu respondi: “O medo!”. Ahed foi capaz de supera-lo. A expressão de minha filha de rejeitar a presença da ocupação, seja com gritos na cara dos soldados, seja com tapas em suas caras, não reflete seu verdadeiro caráter. Ahed é uma menina tímida, carinhosa e muito dócil. Tudo o que ela fez naquele incidente, reflete somente a sua consciência quanto à rejeição da ideia da existência da ocupação em si. Não foi uma reação momentânea.

Fiquei espantado com a resistência da minha filha diante dos investigadores, que se utilizaram de todos os métodos de ameaça, intimidação e coação contra ela. Tentaram, arduamente, abater os seus ímpetos, mas minha garotinha os venceu. Fiquei mais impressionado, ainda, com a mensagem ela me enviou, durante a fase de investigação, através do advogado, logo na primeira visita. Ela disse: “O que aconteceu já era esperado e quando lembro do motivo pelo qual entrei na prisão, elevo-me moralmente, porque o motivo que me levou à prisão vale à pena. Temos suportado as dificuldades, vamos suportar o pior e eu permanecerei forte, porque foi assim que eu fui criada pelo meu pai.  A interação das pessoas com o meu caso deixou-me muito feliz, mas espero que vocês interajam, também, com casos dos outros presos”.

Não há dúvidas de que sinto muito orgulho, porque minha filha tornou-se um ícone da resistência popular, mas ao mesmo tempo me sinto injustiçado porque sua tenra infância foi roubada muito cedo e ela carregou um fardo bem superior à capacidade dos homens.

Desde então, estou constantemente atormentado quanto ao destino de Ahed e sua mãe, especialmente porque fui vítima de uma prisão injusta e arbitrária. Mas esta é a primeira vez em que Ahed é presa e enfrenta uma investigação, enquanto Nariman já passou pela experiência da prisão por três vezes, enfrentou os soldados da ocupação centenas de vezes, já que a nossa casa foi invadida por eles mais de trezentas vezes, desde o início das marchas pacíficas contra a colonização em 2010. Nariman, essa mulher corajosa e lutadora, participou inúmeras vezes do salvamento de dezenas de jovens e crianças, filmou dezenas de cenas de detenções de crianças e invasões de casas, foi ferida no aniversário da morte de seu irmão em 2014, atingida por tiros na coxa, o que inviabilizou seus movimentos por dois anos. Minha esposa tem uma incrível paciência e capacidade de suportar a dor. Foi a única mulher capaz de superar a própria dor, ao conseguir filmar seu irmão sendo assassinado diante de seus olhos, em 2012. Ela decidiu, naquele momento, após um conflito interno, firmar sua câmera e filmar seu irmão enquanto ele sangrava até a morte, ao invés de abraça-lo e despedir-se dele antes de seu último suspiro. O motivo disso é que ela percebeu que, para mostrar a verdade, haveria um preço a ser pago e que o mundo precisava ver o que não queria enxergar: Os crimes de ocupação contra nosso povo. Apesar da deterioração do seu estado de saúde dentro da prisão e de ser acometida de distúrbios ligados ao diabetes e pressão, além de sofrer de asma em decorrência da inalação recorrente de gás lacrimogêneo, e embora minha esposa consiga ser superior às suas feridas, creio que ela é quem mais sofre e, ao mesmo tempo, é a mais forte e dura de todos nós, porque foi de sua dureza que Ahed nasceu.

Desde a Grande Nakba (catástrofe) que se abateu sobre a nossa terra, em 1948, o nosso povo palestino vem sofrendo, sistemática e contínuamente, várias nakbas, tanto dentro da Palestina ocupada, onde o nosso povo está sujeito à ataques, repressões e deslocamentos forçados e continuos, nas mãos das autoridades de ocupação e dos colonos, quanto nos campos de refugiados, onde vive em condições péssimas e desumanas. Somos uma família palestina da aldeia de Nabi Saleh e representamos a situação de sofrimento e sacrifício de cada família palestina, mas o que distingue a resistência popular, em nosso vilarejo, é a presença dominante das mulheres palestinas e o seu papel ativo e proeminente na luta popular. Sendo assim, sua participação constituiu a base para a criação de um modelo criativo neste vilarejo. E apesar das tentativas da ocupação de liquidar este modelo, tendo como alvo as mulheres e meninas de todo o vilarejo de Nabi Salih, seu fracasso foi retumbante, já que não conseguiu derrotar a nossa vontade e a nossa consciência coletiva de rejeitrar a ocupação.

A ocupação escolheu, deliberadamente, este dia especial, em que todos celebram o Dia das Mães, para julgar Nariman e sua filha juntas, em um julgamento militar fascista, mas estamos aguardando o encontro de Nariman e Ahed, para que saiam juntas rumo à liberdade. Aprecio e agradeço a todos pela solidariedade internacional com a nossa causa nacional e, em especial, as organizações humanitárias e de direitos humanos, que não hesitaram, um dia sequer, em prestar apoio e assistência à Ahed e sua mãe e a todo o povo palestino. Pois mesmo que a ocupação consiga deter Ahed e sua mãe, ela não terá êxito em deter o ideal de resistência ao colonialismo, e não terá êxito em deter centenas de milhares de combatentes da resistência pacífica, contrários às suas políticas e práticas. Dizemos ao mundo que somos os donos de uma causa justa e a nossa resistência continuará firme e altruísta, enquanto durar a ocupação. E nossas mães e mulheres da Palestina continuarão a ser um farol que guia a resistência, os desafios e o enraizamento em nossas terras, até a libertação e a independência do nosso país, tendo Jerusalém como sua Capital eterna.

A Palestina se orgulhará de ter a imagem de Ahed, com seus cabelos louros e soltos tremulando junto com a bandeira da Palestina e permanecendo ao lado da imagem de Che Guevara, para inspirar a imaginação de todos os adeptos da liberdade, em todo o mundo. Que a Palestina celebre Ahed e a mãe de Ahed e que tenha orgulho de todas as suas mães, mulheres e meninas. E que, em todos os anos, celebremos nossas mães, nossa pátria e um mundo de pessoas livres. Feliz Dia das Mães!

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